Keblinger

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Do desejo

O que fazer com o desejo que corre em minhas veias e agita minhas células? O mesmo que me ouriça os pêlos, que faz balançar suave os cabelos e faz os olhos brilharem, os poros fervilharem... O desejo é a erupção do vulcão, é a lua tocando o mar, a areia nos corpos, a gotícula de água nas costas depois do banho, escorrendo lentamente, provocando minha sede. Ah, as largas costas dele. Tudo é motivo, tudo é desejo.
Eu o esqueço para ver se ele me esquece, mas ele me açoita a noite, em sonhos, nas curvas dele, na pele dela, no ar fresco que sopra em minha saia... No cheiro de almíscar, na terra molhada... Tudo me desperta: o cheiro, o gosto, as sensações, o movimento, a delicadeza, a força e o mistério.
O que fazer com este Todo, o desejo, esse, de possuir e ser possuída? Desejo de ser consultada, de ser ouvida, desejo de encantar todo dia, e de ser surpreendida. De ser beijada, ser mordida. Eu extravaso esse desejo, eu faço amor, eu faço arte, há desejo de mais em mim... que mal cabe em minha parte.

Carolina Salcides

Matinal

É tudo cintilância, euforia
Depois de foder contigo
No amanhecer de mais um dia.
Antes a manhã era morta
E a tarde
Um eterno arrastar-se...
Hoje enfartei-me
De carne, ossos e suor
Vigorosa estou!
Lasciva sonho alto
Espero a noite para seguir teu rastro
E gozar ao luar.


Carolina Salcides

Ávida...

Um é pouco na hora de saciar a fome e o desejo. Quem come, não come um... come dois... melhor ainda três. À dois sacia-se o desejo, à três, a fantasia. E há quem não goste de cerejas... do seu gosto agridoce. Eu gosto, simultaneamente, o doce e o azedo... De provar todos os gostos... Há ainda aqueles que têm medo... Nada de sobremesas... são cautelosos, comem pouco para cuidar da aparência... e não abrem mão do velho feijão com arroz... Nada picante, nada ácido... Será medo de gostar ou medo de ousar?
Eu gosto de frutas vistosas, suculentas e encorpadas.. Gosto até só de ficar só olhando... Como com a boca e com os olhos... Muitos comem com os olhos... e ficam imaginando seu gosto... Por que não provar o que se tem vontade? Comprazer-se sozinho é egoísmo. Convide seu par... Divida o que é bom. Pecar junto é divino... E para mim gula não é pecado. Sofreguidão é fome de vida...
Sou esganada sim. Quero tudo... até o fim. A festa, as pessoas, o bolo. As cerejas do bolo. Como-as até o cabo. E ainda lambo os dedos.

Carolina Salcides

Dia De Chuva...

Chove em mim: todas as dores do mundo, misturadas com todos prazeres e quereres. Chove em mim: uma enxurrada de emoções, um misto de tesão, de fúria e loucura. Lua nova entra hoje, e eu saio pela outra porta, vou pra longe. Não quero ser mudada. Ela vem nova e, eu nada. Ela chove, e eu seco. Tanto bate que eu choro, mas bate que eu adoro!
Renovo nada, dona lua, continuo na chuva, nua, louca, rouca. Sou teimosa, sou do contra. Pode vir molhada que eu te bebo e não sobra nada. Vem forte em mim, chove tua fúria nos meus poros, me afogue com tua vontade de não ser nada, apenas de tocar em mim.
Escorre silenciosamente assim. Percorre meus caminhos antes de chegar ao fim. Antes que meu calor te evapore, me prove, entra em mim!

Carolina Salcides

Consumação Da Loucura

deleite-se!Inevitável foi a procura... Quando o desejo clama, só a realização cura. Como assaltar a geladeira às escuras, impossível conter a fera faminta que te arranha por dentro. Ela não dorme, fica salivando... Invade teus sonhos e fica te tentando.
Inevitável fugir. O desejo te assombra, qualquer ventinho te assanha, te inquieta na cama... Então você vai, vai de encontro à perdição e, na consumação da loucura, inefável será a entrega.
Inevitáveis serão as palavras líquidas, deleitosas no teu ouvido, porque assim gostas... Será prazer, gozo, lascívia. E por que não haverias de querer? Ela escorrerá na tua boca, e teu pecado será a gula. Provarás o néctar dos Deuses e, depois, não desejará nada menos do que isso.

Carolina Salcides

Santa Mulher!


O meu desejo de pecado não sai do meu lado, quando o perco, o encontro sob meu véu. Não é o outro, é meu próprio corpo que me provoca, atiça a pomba gira que está quieta, assombra o sono da freira santa que não peca nada. Santa mulher! Nem exorcizando teus demônios tua alma terá paz.
Tu não nascestes para ficar quieta, contida. Santa pecaminosa... Anda reto até chegar numa curva... Ali te perdes... Sai da linha. Sai de cena a santíssima senhora correta e a cigana da encruzilhada chega dançando pelada, baila nas curvas, bebe vinho, solta gargalhadas no ar. Um turbilhão de emoções contidas vem à tona, faz da freira santa uma Bela Dona.
Ela perde o controle, perde a vergonha, acaba com a curiosidade, mata a vontade. Ela peca em segredo, porque não é ela, mas sim a outra, que mora dentro dela. Um instante apenas ela é a meretriz das tabernas, depois, saciada, volta a ser a mesma de sempre; santa dissimulada!

Carolina Salcides

Eu Me Entrego

Auuuuuuuuuuuuu
Eu me entrego. Aceito a mim e as condições atuais. Se for para minguar, minguo. Não vou contra meus ciclos... Se for para chorar, choro tudo que houver, vou ao inferno, vou fundo. Se for para amar, também. Amo tudo, intensamente até o fim. Fico cheia, fico nova, me exalo, me recolho, fico de todos os jeitos. Cozinhando ou de molho.
No entanto, não sou marionete do destino. A lua influencia, sim: as marés, as plantações, as minhas emoções... Mas eu escolho meu caminho... Escolho o tempo certo, senão, é energia desperdiçada. Não planto na terra seca, não uivo para mim mesma: espero a chuva, os ventos, para semear minhas palavras, para meu uivo ser escutado.
Sou loba-mulher, selvagem, exaltada. Não posso der domesticada, enjaulada. Preciso do ar da noite, da terra sob meus pés. Preciso correr, caçar, ousar. Tomar banho de lua, exaltá-la, celebrar seu fascínio que reflete em mim. Eu absorvo tal fascínio - sob a lua cheia, no cio, viro fera - encharco-me de desejo.
Eu tenho fome de vida, devoro o mundo num beijo roubado, num pescoço mordido, num corpo suado. Preciso saciar-me, recolher-me, recriar-me. Sempre. Eu me entrego aos meus desejos. Hoje a lua está minguante, estou recolhida, e mesmo assim, sinto desejo.

Carolina Salcides
 

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